Xô, inveja!
Nikkeis estão preocupados em formar kaikan e, assim, não se unem
por Silvio Sano
19.12.2006
Silvio Sano
escritor, autor de Sonhos Que De Cá Segui.
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Uma matéria na Gambare! 49 que me chamou a atenção foi a da “Xô, Inveja”, exatamente por causa das conseqüências nefastas de uma mentalidade errônea enrustida na busca de conseguir uma melhoria social. Acabei me remetendo ao passado, no Brasil. Lá, quando se discute sobre os problemas que a comunidade nikkei sofre, alguém sempre acaba citando, ironicamente: “é só juntar três japoneses para logo surgir uma panela”. O “ironicamente” fica por conta da ambigüidade atual de seu conteúdo.
No início da imigração, seu significado estava mais associado ao caráter “paneleiro” dos comunitários. Mais do que uma intenção de manter as tradições culturais tratava-se, na verdade, de uma forma de auto-proteção contra possíveis abusos subjugadores vindos do entorno, do resto da sociedade brasileira.
O tempo foi passando e, graças à postura de nossos ancestrais que privilegiaram o estudo dos filhos como forma de superar as adversidades na nova terra, as conquistas socioeconômicas aconteceram naturalmente. Isso era tão evidente que a própria sociedade brasileira passou a temer por essa ascensão da comunidade nikkei no Brasil. Existe até hoje o chavão: “no vestibular, mate um japonês”. Logicamente, isso era evidente também aos próprios nikkeis. Daí, começou a surgir uma forte competição também entre eles. Tanto por melhores posições sociais perante a sociedade brasileira como dentro da própria comunidade. A conseqüência foi alguns se afastarem completamente de seus pares, enquanto outros, para não perderem poder, aceitaram o chavão e foram formar mais e mais kaikans, concentrando ainda mais a “panela”.
E a relação com a reportagem sobre a inveja é porque a comunidade nikkei no Brasil, como um todo, agora pena para eleger os seus representantes. Essa reportagem, tenho certeza, foi fruto de constatações da falta de união entre os dekasseguis.
Como a própria matéria aborda, por estar tão presente no dia-a-dia, a inveja já é considerada como algo normal. Mas chama a atenção o excesso de ocorrências que tem levado à conseqüências mais graves. É preciso fazer uma auto-reflexão e passar a nos policiarmos daqui para a frente.
Assim como já debatemos aqui sobre a importância de se valorizar uma hora a mais com a família em relação a uma hora a mais no trabalho (zangyou), até para a melhoria da produtividade no emprego, vale a pena refletir agora sobre as vantagens de se trabalhar em um ambiente agradável e harmonioso (mesmo com poucos zangyous) do que em um repleto de “olhos gordos”, também pelo aspecto da melhor produtividade. Em alguns casos, os brasileiros terão de se conformar com uma estada mais longa no Japão para fazer o pé-de-meia. Mas valeria a pena.
http://gambare.uol.com.br/2006/12/19/xo-inveja/

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